Uma tragada, um gole de Scotch. Que dia horrível para ele me deixar. Aliás, como é horrível chegar em casa e não vê-lo! Depois desse tempo todo ele decide que não vai dar certo? Que a situação é insustentável? De um dia para o outro eu me tornei mais monstruoso que o normal? Sorrio, amargurado. Talvez tenha, mesmo...Uma tragada, um gole de Scotch. Acho que fiz papel de idiota. Ele já não me pertencia desde o começo, acostumado que estava a amar aquela criatura. Por que diabos eu tinha que me meter? Meus sentimentos são indóceis demais, que raio de autocontrole é esse que eu tenho? Não devia tê-lo feito me amar. A vida dele era boa demais sem mim, acabei estragando tudo. Mas aquela beleza que me machucava...

Outra tragada, mais um gole de Scotch. Devia parar de fumar. Teria tentado, não fosse por ele. Acendo um novo cigarro. Quem se importa, na verdade? Sempre fumei perto dele, acho que para me acalmar. Meu peito se aperta, me mexo como se a culpa fosse da poltrona. Está escurecendo, mas não penso em acender a luz.
Uma tragada e seguro a garrafa. Droga, quase no fim! Já devo estar bêbado, então por que é que a dor não passa? Bebo o resto do whisky de uma só vez, procurando não pensar. Mas não deixo de sentir o cigarro me queimar os dedos. Irritado, jogo-o no chão. Olho para minha mão, lembrando das mãos dele, as unhas um pouco grandes. Arranhava minhas costas, doía! Mas era bom... ele gostava.
Ok, última tentativa: jogo a garrafa na parede com toda a força. Ouço o vidro se estilhaçar enquanto o cheiro do álcool se espalha. Ainda dói. A casa, de repente, está toda escura! Não tenho vontade de acender a luz. Demoro a raciocinar... ah, que maravilha, estou bêbado! Fecho os olhos, esperando o sono inevitável. Mas ouço crianças na rua jogando dominó.
Winnie Kássimo



