terça-feira, 18 de agosto de 2009

17h, Casa em Genebra

Uma tragada, um gole de Scotch. Que dia horrível para ele me deixar. Aliás, como é horrível chegar em casa e não vê-lo! Depois desse tempo todo ele decide que não vai dar certo? Que a situação é insustentável? De um dia para o outro eu me tornei mais monstruoso que o normal? Sorrio, amargurado. Talvez tenha, mesmo...

Uma tragada, um gole de Scotch. Acho que fiz papel de idiota. Ele já não me pertencia desde o começo, acostumado que estava a amar aquela criatura. Por que diabos eu tinha que me meter? Meus sentimentos são indóceis demais, que raio de autocontrole é esse que eu tenho? Não devia tê-lo feito me amar. A vida dele era boa demais sem mim, acabei estragando tudo. Mas aquela beleza que me machucava...



Outra tragada, mais um gole de Scotch. Devia parar de fumar. Teria tentado, não fosse por ele. Acendo um novo cigarro. Quem se importa, na verdade? Sempre fumei perto dele, acho que para me acalmar. Meu peito se aperta, me mexo como se a culpa fosse da poltrona. Está escurecendo, mas não penso em acender a luz.

Uma tragada e seguro a garrafa. Droga, quase no fim! Já devo estar bêbado, então por que é que a dor não passa? Bebo o resto do whisky de uma só vez, procurando não pensar. Mas não deixo de sentir o cigarro me queimar os dedos. Irritado, jogo-o no chão. Olho para minha mão, lembrando das mãos dele, as unhas um pouco grandes. Arranhava minhas costas, doía! Mas era bom... ele gostava.

Ok, última tentativa: jogo a garrafa na parede com toda a força. Ouço o vidro se estilhaçar enquanto o cheiro do álcool se espalha. Ainda dói. A casa, de repente, está toda escura! Não tenho vontade de acender a luz. Demoro a raciocinar... ah, que maravilha, estou bêbado! Fecho os olhos, esperando o sono inevitável. Mas ouço crianças na rua jogando dominó.

Winnie Kássimo

Dos Quase Divórcios e Desistências



"Mimi, não dá. Não te quero mais, nunca quis muito, mesmo. Estou contigo porque... ah, porque sei lá, você é legal, meio louca, às vezes, mas... puxa! Você cozinha putamente bem, faz meu prato favorito e tudo! Você é o máximo, Mimi, mas não dá, não. Cansei.

Eu sempre quis mesmo alguém que me achasse um rei. E me tratasse feito um. E me desse o café na cama de vez em quando, passasse minha roupa, tirasse meus sapatos quando eu chegasse em casa. Isso, Mimi, você nunca fez, não. Nem nos primeiros tempos, caramba! Acho que me decepcionei, sabe? Aí eu fui levando, mas já não gostava tanto.

Mas agora você me trata mal, Mimi. Bem... mal, mal de verdade até que não. Você ainda faz meu prato favorito, às vezes. E me compra perfumes. E dorme comigo, até... só que eu não quero mais. E antes que você diga que eu to te traindo, te mando logo pastar. Vou ficar com ela, vou sim! Ela é 15 anos mais nova que você, 15, Mimi! E gostosa! Me chama de ‘senhor’, me olha de um jeito... você não me olha mais assim. Como se me admirasse, como se eu fosse importante, Mimi!

Vou ficar com ela. Você é ótima, foi legal. Não te quero mais. Tchau.

Orlando

P.S: Vou pagar as despesas de vocês ainda, pra você ver que eu sou um homem.”

Ele olhou, releu a carta. Ficou feliz, depois ficou tenso. Sabia que não ia ser fácil desse jeito. Ela sabia... desde quando Mimi ligava de madrugada quando ele dormia fora? Claro que ia dar problema. A filha estava estranha no telefone hoje cedo, também...

“Merda!” Pensou, amassando a carta. Não adiantava nada ser tão sincero. Coragem pra largar Mimi não tinha. E a secretária... bem... ser tratado com um rei era bom, mas enchia o saco, às vezes, mesmo....

Suspirando, levantou-se ruidosamente da cadeira. Jogou a carta no cesto de lixo e foi buscar um copo de café.

Winnie Kássimo

domingo, 16 de agosto de 2009

Tri-ana

Puxa vida, nem sei o que dizer, mas precisava fazer um post para esta, que é um dos seres mais fofos que conheço, no dia do seu aniversário.

Sempre achei engraçado o fato de ela ser três vezes Ana. Reflitamos: Ana significa "cheia de graça". Então ela é três vezes agraciada! Será que isso explica o fato de ela ser três vezes mais cordial que a maioria dos mortais, três vezes mais criativa e e escrever três vezes melhor que alguns? É possível...

Bem, não vou me estender. Até porque o mais importante se segue agora! xD

Feliz aniversário, Triana. Você é maravilhosa, querida.

domingo, 22 de março de 2009

Não, Não Era Carnaval


“Eva, minha preta, me dê paz! Não requebre as cadeiras desse jeito, que você me mata!”
E Eva, mulata despachada e debochada, sambava olhando por cima do ombro, rindo do pobre moço que suava, tirando o chapéu para se abanar.
“Ah, mulata abusada!”


Marcando o ritmo, pé ante pé, ela voltou para a mesa e sentou-se, o peito arfando, involuntariamente abrindo mais o decote. Joãozinho, ao seu lado, tomou um gole de cerveja, suando dois anos de desejo mal reprimido pela mulata, que nunca mostrou se importar.


“Você não tem piedade, Eva! Estou tremendo, veja!” Estendendo a mão trêmula para a moça, Joãozinho agarrou seu braço. Jogando a cabeça para trás, Eva riu, sacudindo os cabelos crespos e exibindo os dentes brilhantes. Gostava do efeito que causava no rapaz, de como ele a olhava bobo, beirando a veneração. Gostava de vê-lo suar frio e prender a respiração quando ela passava por perto... Mas nunca antes sentira suas mãos tão fortes!... Eva vacilou. Como nunca antes notara as linhas perfeitas de seus braços marcando a camisa? Como nunca percebera como seu peito era forte...? Quando Joãozinho se tornara tão lindo?!

“Que nada, João...” Eva falou, a voz sumindo. “Não sou assim sem coração, também!” “Então por que você se nega tanto, minha preta?” O moço sorriu, se aproximando. “Ah, Deus, esse sorriso”, ela pensou, vendo o feitiço se virar contra ela própria, enquanto seu peito se apertava. “E quem disse que me nego?” Falou a moça, suas narinas infladas, sua voz quase um ronronado... Era demais! Joãozinho agarrou-a pelos ombros, beijando seus lábios com fúria, derrubando no caminho o copo ainda cheio de cerveja. Depois de três segundos de luta, Eva suspirou, finalmente se entregando, deixando Joãozinho tomar-lhe a boca, beijar-lhe a alma...

Ao fundo, o samba ainda tocava. Outras mulatas deixavam os homens em estado de aflição. Na mesa cinco, Eva se segurava para não gritar. A cerveja que escorria da mesa pingava, fazendo uma poça no chão...

Winnie Kássimo

segunda-feira, 16 de março de 2009

Hoje eu Acordei Com Neurotransmissores a Menos


Passei pelas ruas como se elas fossem um borrão. Apesar disso, não tropecei em nada. Cada esquina, cada maldito beco daquele lugar estava impresso na minha mente havia anos. As pedras da calçada pareciam conhecer meus passos! Isso me irritava, às vezes... bem, pelo menos eu estava tentando respirar...


Minha cabeça andava a ponto de explodir ultimamente. A casa cheia de pessoas que eu amava, mas para as quais eu não agüentava mais olhar, os malditos dez dias que eu passei presa dentro de casa, sem nada a fazer a não ser olhar os mesmos rostos dia após dia... isso estava me matando! Então, no décimo - primeiro dia eu peguei uma bolsa e saí. Não sabia para onde estava indo e pouco me importava, desde que saísse dali. Depois de andar por horas sem a menor preocupação, acabei entrando num bar. Um bar! Que diabos estava eu fazendo num bar, às 15h, completamente sozinha?


...


Sozinha. Levei três doses de vodka para ter a dimensão exata de como isso me afetava... pois eu estava me sentindo tola e completamente sozinha. E a cada nova dose a palavra ecoava como um tambor na minha mente confusa, até que eu me cansei da autoflagelação e tentei sair dali, minha cabeça girando como um processador de carne.
A bolsa pesava 20 kg nas minhas costas, enquanto eu me arrastava de volta para casa. Uma rua antes, vomitei na calçada, sujando um cachorro que saiu ganindo e mancando. Entrei em casa sem olhar para os lados e fui direto à minha cama, me sentindo enojada, miserável e incapaz de lidar comigo mesma. Lá fora, o sol se punha. Aqui dentro, minha mente oscilava. “Idiota”, pensei um segundo antes de apagar. Dormi pesadamente. Não sei o que aconteceu depois. Mas, no dia seguinte, percebi que alguém havia ligado meu ventilador...



Winnie Kássimo

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Risoleta

Ela abriu os olhos e tremeu. A água do chuveiro estava fria. Bom. Ajudava a acordar. Porque Risoleta precisava acordar. Estava tarde e ela precisava correr.
Olhou para cima e tentou enxergar na claridade das cinco horas da manhã, desigual como um triângulo escaleno. Não viu nada. Acima, tudo estava escuro. Instintivamente, olhou para baixo. Uma réstia de luz vinha do seu quarto. O chão, seus pés, tudo clarinho, iluminado... “Isso é um milagre, Risoleta”, ela pensou, fazendo o sinal da cruz. Se sentia feliz como quando era criança e sua mãe a acordava com um copo de vitamina de banana com Nescau. Mas ainda precisava correr.
A pressa lhe lembrou Amaro. Amaro a fez parar. Era uma lembrança tão cara que não podia ser lembrada às pressas. Se bem que Amaro estava sempre correndo... “Menos quando começa a me olhar de lado”, pensou, sorrindo. E lembrou-se das mãos grandes do rapaz que a punha doida. Começou a fantasiar, quase sonhou! As mãos de Amaro no seu corpo, subindo sem pressa...
“Jesus, piedade!” Risoleta fez o sinal da cruz, arrependida. “Isso é pecado!” Mas as mãos de Amaro não a largavam. Bruscamente, desligou o chuveiro e enrolou-se na toalha. “Tanta coisa pra fazer e eu pensando bobagem!” Mas as sensações não paravam de vir. Tomou café sem sentir o gosto da comida. Estava aérea. Não ouviu sua mãe dizer “Vá com Deus, minha filha”, quase caiu quando subia no ônibus. O diabo do pensamento não saía da sua cabeça. Na escola, não viu Amaro. Seu estômago foi aos pés. A consciência subitamente voltou. Risoleta estava pronta para estudar.
Na hora do intervalo, saiu. Na fila da cantina, já cansada de esperar, sentiu um calor no ombro esquerdo e um arrepio pelas costas. Quase fez o sinal da cruz, temerosa. Mas olhou para trás e viu Amaro. Se houvesse ali um espelho, com certeza Risoleta se veria vermelha, vermelha, mais que as acerolas maduras do quintal de sua avó. “Quero lhe falar mais tarde”, disse o rapaz que a punha doida. Risoleta, sem fala, fez que sim. Amaro apertou seu ombro forte, tão forte, que quase doeu. E foi para dentro.
Acabara-se o equilíbrio! Risoleta tinha uma bigorna no estômago e borboletas na cabeça. Desistiu de comer. Na aula, como estudar? Só tinha olhos para o relógio na parede e para a nuca de Amaro, duas carteiras à sua frente... até que o sino da escola tocou. Aérea como estava, Risoleta mal se despediu das colegas. Amaro lhe segurava um braço. “Vamos, eu levo você até o ponto. Vamos no mesmo ônibus hoje.” E, sorrindo, Risoleta foi.
Depois de quase cinco minutos andando em silêncio, Amaro parou. Segurou a mão de Risoleta. “Vem aqui,” ele disse. E puxou-a para o beco entre o banco e a Boutique. “Não disse que queria lhe falar?” Risoleta, as mãos geladas de nervoso, assentiu. Amaro pousou as mãos na sua cintura. “Quer namorar comigo, Risoleta?” “Quero!” Risoleta respondeu ofegante, o coração já nos pés.
Sorrindo, Amaro puxou-a para si. O beijo que lhe deu era cheio de borboletas. “Vou morrer”, pensou Risoleta, de tão feliz que estava. A duas ruas dali, seu ônibus passava. Que importância tinha? Tudo que existia eram as mãos de Amaro, subindo devagar...


Winnie Kássimo

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Psicose

Irene. Meu amor. Era ela quem ocupava meus pensamentos enquanto eu bebia, ela quem silenciosamente zombava dos meus passos rígidos nas ruas, em cada rosto que eu via, tentando disfarçar a leve embriaguez... é ela quem agora a abre a porta para mim, com um olhar de criança assustada que me faz rir... ela está com medo!
“Matar Irene.” De novo esse pensamento doentio me vem à mente, provocando arrepios de prazer. Sorrindo, entro em casa, observando suas patéticas tentativas de me evitar. Olho fixamente para o rosto que eu amo tanto, imaginando, quase pedindo aos céus que ela me desse um único motivo para matá-la. Com um dedo, acaricio seu rosto, percebendo a confusão que nela se instala aos poucos. Ela gosta do meu toque, mas, instintivamente, sabe que vai morrer. Provavelmente ainda não esqueceu o que fiz há dias... ela ainda deve recordar a fogueira ardendo na cozinha, alimentada por suas roupas favoritas...
“Murilo e Júlia ainda não voltaram”, ela quase sussurra. Bom. Não quero interrupções. Ainda sorrindo, entro no quarto e pego meus cadeados novos. Lentamente, começo a trancar janelas e portas. Irene, atrás de mim, pede, grita que eu pare. É inútil, ela sabe, mas continua implorando para que eu abra as portas. Ela me irrita. Tenho vontade de esbofeteá-la... mas não. Ainda não... continuo trancando minha casa, transformando-a em minha fortaleza. Ainda não sei o que vou fazer, mas deixá-la em pânico é delicioso!
“Venha dormir, Irene.” Eu chamo, já sabendo a resposta. O pavor com que ela me olha faz com que eu quase tenha paroxismos. Ela realmente sabe que vai morrer. Mas eu resolvo dar tempo a ela. Carregando as chaves comigo, me tranco no quarto e deito. Divertido ouço-a implorar a Murilo que venha para casa, pelo telefone. Se ele conseguir entrar aqui... meu filho... pirralho, mal saiu dos cueiros e já me olha com uma arrogância irritante, como se fosse mais homem que eu... não sei se gosto dele. Isso é muito estranho... acho que vou matá-lo também.
Pensando em Murilo e Irene, adormeço. Estranhamente, um sono sem sonhos... acordo com as pancadas na porta. “Pai, me dás as chaves!” Por onde esse moleque atrevido entrou? Os gritos dele me enraivecem. Ele acha mesmo que eu vou abrir a porta? Ouço-o pedir à mãe para se afastar. Esse infeliz vai arrombar a porta!
Murilo entra sem me olhar e pega as chaves. Preciso me controlar, senão vou torcer o pescoço dele... e isso não seria divertido!
Levanto-me e vou até a cozinha. Escolho duas facas. Testo o fio. Meu dedo demora para sangrar... estão boas. Não afiadas demais, assim posso cortar com mais força. Chego à sala com as mãos atrás das costas, mas Irene lê nos meus olhos o que vou fazer. Pelo visto, Murilo também. Ele pede à mãe que corra. Eu ataco. Ele desvia. Irene não que deixá-lo sozinho comigo, mas acaba saindo. Pela janela da cozinha. Droga! Esqueci de trancá-la! Com um raiva redobrada tento cortar meu filho. Ele desvia. Corre e pula a janela da cozinha.
Largo as facas no chão. Minhas mãos não param de tremer. Eu quase matei meu filho e a mulher que eu amo!... Enterro o rosto nas mãos, totalmente confuso, perco a noção do tempo...
A porta. Estão batendo. Abro e vejo policiais. Irene chamou a polícia?! Sorrindo, me deixo levar não sei para onde. O rosto de Irene invade outra vez meu pensamento. Seus olhos apavorados quase me fazem rir. A idéia de matá-la volta a tomar forma. Um arrepio me percorre a espinha...

Winnie Kássimo